quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Brasil melódico

Feito a partir do acervo de Nirez, livro reúne canções referentes a fatos e costumes do Brasil até os anos 60
Aos 20 anos, em 1954, Miguel Ângelo de Azevedo compraria seu primeiro disco. Depois dele viriam mais 21.999. E como se não bastasse ouvi-los, o desenhista publicitário ainda elaborava verdadeiras resenhas em seus cadernos.
O pesquisador Miguel Ângelo de Azevedo, o Nirez, em seu acervo de discos raros
FOTO: KID JUNIOR


"Nunca guardei um disco que não fosse anotado", explica Nirez, assim conhecido, muito mais do que Miguel. "Sempre anotava algo sobre uma falha de interpretação, o assunto que era tratado no disco, uma curiosidade sobre a letra... Ouvia e já fazia a crítica", relembra. O hobby o converteu numa das principais autoridades sobre a fonografia em cera do Brasil - uma referência a qual recorrem estudiosos, selos e gravadoras.

Hoje, no auditório do Museu da Imagem e do Som, equipamento da Secretaria da Cultura do Estado (Secult) por ele dirigida, o pesquisador lança uma obra de referência para o acervo musical nacional. Em "A História Cantada no Brasil em 78 Rotações", Nirez discorre e apresenta músicas referentes a grandes acontecimentos brasileiros.

"Foi até rápido para fazer o livro, justamente por causa das minhas anotações", revela. "Fui lá no meu fichário e procurei todas as músicas que faziam referência a esse tema: as guerras, as pestes, a política... E depois foi só citar as letras e elaborar textos que conectassem essas canções", detalha Nirez. A empreitada levou três anos.

Épico
Nirez começa citando o início do século XX, em 1902, com a eclosão de grandes pestes. "Naquela época, o prefeito do Rio de Janeiro, Pereira Passos, contratou Oswaldo Cruz para higienizar a cidade e várias músicas foram produzidas sobre a vacinação. Como não tinha gente suficiente pra pegar os ratos da cidade, o prefeito começou a comprar os ratos a um tostão. Por causa disso nasceu ´Rato, rato!´, uma cançoneta gravada por Alfredo Silva, em 1904", detalha.

Ao longo de mais de 500 páginas, Nirez reúne dois dos seus acervos mais preciosos: o musical e o advindo de sua memória, simplesmente prodigiosa. Sem esforço, Nirez é capaz de recordar datas, nomes e fatos, sempre entrecortando-os com muita música.

Segundo ele, o período percorrido pelo livro segue até 1961, com o incêndio do Gran Circus Norte-Americano, em Niterói. Tino Reis, cantor e compositor, comoveu-se com a tragédia (que deixou mais de 500 mortos) e compôs "Niterói de Luto".

Como os discos foram coletados a partir de 1954, muito há referente à política. Em 1951, quando Getúlio Vargas "volta aos braços do povo" e as repartições públicas voltariam a adotar seu retrato nas salas, Haroldo Lobo e Marino Pinto compõem a marcha "Retrato do Velho", gravada por Francisco Alves, em 1950.

A exposição da foto de "Gegê", aliás, acabou indo parar na capa do livro. Entre as raridades de Nirez está o samba de Marcelino Ramos e Silas de Oliveira, intitulado "A Carta", em que o texto da carta-testamento de Getúlio é adaptada à melodia do samba.

Sobre o Ceará, o pesquisador catalogou canções sobre praias, praças e misses. "Gordurinha e Nelinho gravaram o inesquecível baião ´Praça do Ferreira´, em que falavam do ventinho que arribava as saias das meninas. Teve também o baião de lamento de Humberto Teixeira, ´Eu vou pro Ceará´, que dizia ´Meu povo tá chorando, eu vou lá chorar também´", recorda Nirez.

Apesar do vasto conhecimento, o jornalista contou, sim, com alguns parceiros, entre eles, o político Franklin Martins. "Ele é muito entendido de política, então costumávamos trocar ideias, tinha música que fazia referência a algum fato político e eu nem sabia", explica. Através de um patrocínio do Ministério da Cultura, o acervo de Nirez encontra-se digitalizado.

"Nem eu escuto mais os discos originais. Agora com a internet, eu ouço direto do acervo!", acrescenta.

Segundo ele, até existe um desejo de transformar o livro em um projeto musical, uma espécie de álbum reunindo as músicas citadas na obra, mas os direitos autorais são o maior entrave. "É muito complicado. Domínio público é de 75 anos pra baixo, mas, mesmo assim, alguém da família do artista pode botar banca...", aponta.

LIVRO
A história cantada no Brasil em 78 rotaçõesMiguel Ângelo de Azevedo (Nirez)
Edições UFC
2013, 522 páginas
R$ 70

Mais informações:
Lançamento do livro "A História Cantada no Brasil em 78 Rotações", de M. A. de Azevedo (Nirez). Hoje, às 19h, no auditório do Museu da Imagem e do Som (Av. Barão de Studart, 410). Contato: (85) 3101.1200

MAYARA DE ARAÚJOREPÓRTER

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