terça-feira, 29 de novembro de 2011

Professor denuncia ‘deslizes gramaticais graves’ em prova da UECE


Página de Jose Lima Malveira no Facebook
O professor de português José Lima Malveira, de Limoeiro do Norte, aponta deslizes gramaticais graves nas questões da prova de português do vestibular da Universidade Estadual do Ceará (UECE), realizado no domingo em Fortaleza e nas seis unidades do Interior. A denúncia tem repercutido no Facebook desde ontem à noite. “Já que se cobra ao aluno esse conhecimento da norma, conviria ao redator da prova seguir a mesma lei”, afirma o professor. Confira os “deslizes gramaticais da UECE”:Os deslizes gramaticais da UECE (PARTE I). O texto da prova de português do vestibular da UECE apresenta, em nossa modesta opinião, alguns desvios graves da norma culta. Como o teste é um mecanismo de aferição do conhecimento do aluno a respeito do idioma, tais falhas são indesculpáveis. O primeiro lapso ocorre logo no início da prova, nas “Notas esclarecedoras”, em que há a frase: “Ela, inclusive, conclui UM OUTRO poema do mesmo livro com os seguintes versos”. A expressão destacada por nós com maiúsculas é amplamente censurada pelos melhores gramáticos. Não se deve usar UM antes de OUTRO, porque “outro”, por si só, já expressa ideia de indefinição. A falha se repete na nona questão, no enunciado do último item: “É utilizado com o propósito de orientar o interlocutor para a construção de UM OUTRO sentido.” As frases ficariam corretas assim: “Ela, inclusive, conclui OUTRO poema do mesmo livro com os seguintes versos” e “É utilizado com o propósito de orientar o interlocutor para a construção de OUTRO sentido.”
E segue:Os deslizes gramaticais da UECE (PARTE II). “DENTRE SUAS OBRAS, encontra-se ‘Criança no meu tempo’, composta de poemas que falam sobre a vida das crianças de antigamente.” Essa é a frase inicial das mesmas “Notas esclarecedoras”, de que falamos no primeiro “post”. A palavra DENTRE (contração das preposições DE e ENTRE) só deve ser empregada com verbos que indiquem movimento, como neste caso: “DENTRE as pedras, SAÍAM formigas apressadas.” Quem sai, sai DE algum lugar, nesse caso, “sai DE ENTRE as pedras” (DENTRE). Na frase em análise, o verbo utilizado é ENCONTRAR. Quem encontra, encontra algo EM algum lugar, e não DE algum lugar. O mesmo erro se repete no enunciado da questão 11, em que se lê: “DENTRE as ideias a seguir, assinale a única que está expressa no texto.” As frases ficariam corretas assim: “ENTRE SUAS OBRAS, encontra-se ‘Criança no meu tempo’, composta de poemas que falam sobre a vida das crianças de antigamente” e “ENTRE as ideias a seguir, assinale a única que está expressa no texto.”
Os deslizes gramaticais da UECE (PARTE III). “NA MEDIDA EM QUE retrata uma cena da realidade, autoriza uma leitura referencial.” A falha dessa frase se encontra no uso indevido da locução NA MEDIDA EM QUE, uma das modas recentes adotadas por pessoas instruídas e até mesmo por escritores. Todavia, mesmo no meio jornalístico, em que se goza de certa liberdade gramatical, essa expressão tem sofrido severas críticas. Dizem as gramáticas e os manuais de redação dos grandes jornais que a locução NA MEDIDA EM QUE não pode ser utilizada para substituir UMA VEZ QUE, SE, PORQUE, DESDE QUE e À MEDIDA QUE, como infelizmente ocorre no texto da UECE. O correto emprego de NA MEDIDA EM QUE se dá em frases como esta: “A expansão da lavoura algodoeira não pôde produzir-se NA mesma MEDIDA EM QUE se produziu noutras terras.” (Sérgio Buarque de Holanda) Há, nesse caso, a noção de quantidade, que deve estar associada a essa estrutura do idioma. 
Os deslizes gramaticais da UECE (PARTE IV). No item “b” da questão 14, lemos: “Posição hierárquica em um grupo qualquer: social, familiar ETC.” Embora não se deva, na maioria das situações, pôr vírgula antes da conjunção “e”, convencionou-se que esse emprego deveria ocorrer antes de ETC, que significa “e outras coisas”. O próprio enunciado da questão 7 confirma essa regra (“De acordo com a maioria dos críticos literários, os textos se estruturam sobre uma oposição básica do tipo tristeza / alegria; civilização / selvageria; passado / presente, ETC.). Já que se cobra ao aluno esse conhecimento da norma, conviria ao redator da prova seguir a mesma lei. A frase, corrigida, ficaria assim: “Posição hierárquica em um grupo qualquer: social, familiar, ETC.”
Os deslizes gramaticais da UECE (PARTE V). Nas observações ao texto 3, que precede a questão 10, lemos: “O texto 3 é um recorte de uma entrevista concedida pelo escritor Sérgio Vaz, para o SITE ‘Brasil de Fato’”. A palavra estrangeira SITE, como recomenda a norma, não foi destacada por meio de nenhum dos recursos empregados na prova: o negrito, o itálico e as aspas. Como as observações já se acham em itálico, seria necessário pôr o estrangeirismo em negrito ou entre aspas, o que não foi feito. Se a UECE tivesse adotado como regra não realçar esse tipo de vocábulo (esse é o procedimento da maioria dos nossos jornais), compreenderíamos. Entretanto, notamos que a palavra DÉTOURNEMENT, um francesismo, aparece em itálico tanto no enunciado quanto em todos os itens da questão 9. Tal como aconteceu com o ETC, os redatores caíram outra vez em contradição.
Os deslizes gramaticais da UECE (PARTE VI). Ainda na questão 9, lemos: “No caso da propaganda em questão, o ‘détournement’ leva o interlocutor a acreditar que o carro apresentado é TÃO BOM QUE não se precisa pensar duas vezes para comprá-lo.” O que está faltando na frase? Pouca coisa: apenas uma vírgula depois de BOM. A oração QUE NÃO SE PRECISA PENSAR DUAS VEZES PARA COMPRÁ-LO se classifica como subordinada adverbial consecutiva. Todas as orações desse tipo devem ser separadas da oração principal por vírgula. É o que reza a gramática. A sentença ficaria correta assim: “No caso da propaganda em questão, o ‘détournement’ leva o interlocutor a acreditar que o carro apresentado é TÃO BOM, QUE não se precisa pensar duas vezes para comprá-lo.” Fique atento!

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