quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

MORRE WANDO: Chora, coração


Wando: carreira marcada pelo personagem de galã erótico, com calcinhas, maçãs e outros elementos desse universo; cantor partiu cedo, aos 66 anos de idade
Após parada cardiorrespiratória, o cantor e compositor Wando morreu na manhã de ontem
Apesar da óbvia tristeza, a notícia do falecimento do cantor e compositor Wando gerou uma série de menções bem-humoradas - pelo menos na esfera das redes sociais, por onde parte do público a recebeu. De desenhos referentes à letra de "Fogo e Paixão" (mais conhecida pelo refrão "meu iá iá/ meu iô iô") até considerações sobre um possível caminho póstumo do artista rumo ao patamar de "cult" (no sentido de possuir muitos fãs mas pouco reconhecimento da crítica especializada), a sensação é de que fica uma memória carinhosa.
Wando estava internado desde 27 de janeiro, no Biocor Instituto, em Nova Lima, na Região Metropolitana de Belo Horizonte (MG), em recuperação de uma angioplastia de emergência (cirurgia para desobstrução de artérias no coração). Até poucos dias, seu quadro era considerado estável, mas, após uma parada cardiorrespiratória na manhã de ontem, não resistiu e faleceu, aos 66 anos. No último domingo (5), o cantor mandou um recado aos fãs pelo programa "Fantástico", onde dizia estar "na oficina de Deus arrumando a turbina. Me aguardem!".

Autor de sucessos como "Moça" e "Chora coração", Wando foi inserido na categoria do "brega-romântico", que abriga nomes como Reginaldo Rossi, Odair José e Waldick Soriano, entre outras estrelas da música popular brasileira. No entanto, para além das letras sobre mulheres, amor e sexo, seu diferencial estava no personagem que construiu para si - espécie de galã politicamente incorreto, colecionador de calcinhas. Literalmente, pois, de fato, Wando tinha a maior coleção do Brasil dessa peça íntima feminina, com mais de 17 mil exemplares. Muitas atiradas no palco por fãs, em apresentações.

Erótico
Em depoimento no site oficial, o próprio Wando conta o início desse fetiche, quando utilizou calcinhas para ilustrar a capa do disco "Tenda dos prazeres" (1990). "Uma calcinha de cabeça pra baixo vira uma tenda, não é? Aí coloquei uma calcinha na capa do disco, e essa coisa fez tanto sucesso que até hoje não consigo tirar do show. Distribuo calcinhas e recebo, tenho uma coleção muito grande, de todas as formas, jeito, cores e tamanhos", fala no registro.

Embora não tão emblemáticos quando as calcinhas, outros elementos incorporados pelo artista também contribuíram para aumentar sua fama - caso das maçãs e dos convites para motéis, respectivamente mordidas e distribuídos em shows. "Assim como outros artistas, Wando nunca foi ´refinado´, sempre foi popular. Mas, ao mesmo tempo, investiu nessa particularidade do erótico. Investiu na construção de uma imagem e até em um tipo de público específico, o feminino", avalia o doutor em comunicação e professor de jornalismo e publicidade do Instituto de Cultura e Arte da Universidade Federal do Ceará (ICA), Ricardo Jorge Lucas. "No começo dos anos 90, quando ainda trabalhava em jornal, recebi um disco dele que vinha empacotado em uma calcinha, como material de divulgação. Ele assumia abertamente esse lado escrachado".

Trajetória
Vanderley Alves dos Reis nasceu em 2 de outubro de 1945, no então Arraial de Bom Jardim (MG), mas foi registrado na cidade de Cajuri, no mesmo estado. Ainda criança, mudou-se para Juiz de Fora (MG), onde concluiu o antigo primário. Mais tarde, em Volta Redonda (RJ), trabalhou como entregador, jornaleiro, feirante e motorista de caminhão, ente outros bicos.

Nessa época, interessou-se por música e passou a tocar violão. Como o "estilo clássico", não impressionava as mulheres (afinal, em suas palavras, ele queria mesmo era "tocar para as moças"), decidiu fazer "umas canções de amor".

A carreira engendrou ao mudar-se para Congonhas (MG). Lá, Wando entrou para o grupo "Os Escaravelhos" e foi descoberto pelo cantor Nilo Amaro (do conjunto Cantores de Ébano), com quem compôs "O Importante é Ser Fevereiro" - mais tarde regravada por Jair Rodrigues. Incentivado por Amaro, partiu rumo ao eixo Rio-São Paulo, para investir na carreira. Na capital carioca, em 1973, gravou o primeiro disco, "Glória a Deus e samba na Terra". Mas foi em 1974, com o disco "Moça", que Wando alcançou o sucesso, com mais de um milhão de cópias vendidas.

Ao longo da carreira, foram mais de 20 álbuns, sendo "Romântico Brasileiro, Sem Vergonha" (2005) o último de inéditas. Com seu falecimento precoce, Wando torna-se alvo ainda mais fácil do chamado "culto aos mortos" - quando os feitos de determinada personalidade são engrandecidos e ela ganha nova quantidade de fãs de repente.

Por ter sido um artista "brega-romântico", a memória do cantor reascende momentaneamente o debate em torno dessa nomenclatura e da própria qualidade das músicas do gênero. Para Ricardo Jorge, a questão passa por uma espécie de dualidade construída entre crítica e público, qualidade e sucesso. "De um lado, há o movimento dos críticos musicais em tentar antecipar a próxima no grande coisa, no sentido de manter a autoridade para afirmar o que é bom; do outro, o público que gosta e consome independente dessas avaliações, e motivado pelo que aparece no rádio e na TV", explica Ricardo.

"No caso de um artista específico, como Wando, para avaliar sua produção seria necessário passar um pente fino, ver o que ele compôs, o que interpretou. Vale ressaltar ainda a diferença de contexto entre as últimas décadas. Nos anos 70, letras que falavam sobre erotismo precisavam ser, de algum modo, mais sofisticadas, para evitar a censura", analisa o professor. "Também, releituras de outros artistas podem tornar melhor uma canção antes despercebida. Caetano Veloso, por exemplo, faz isso".

ADRIANA MARTINSREPÓRTER

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