quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Teatro cearense de luto

 
Foi com muito pesar que gestores, ex-alunos, colegas, amigos e família receberam, na manhã de ontem, a notícia de falecimento do ator, educador e diretor Sidney Souto, aos 49 anos. O artista estava internado havia quatro dias no Hospital São José, em Fortaleza, com um quadro de histoplasmose (doença causada por fungo, transmitida por via respiratória), e faleceu por volta das 7 horas.
Referência no cenário teatral do Estado, Sidney dividia-se entre o palco e as salas de aula. Formado pedagogo, foi professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE) e, mais recentemente, da Escola Porto Iracema das Artes, onde ministrou módulo do curso "Atuação para Cinema", oferecido em 2014.
Como ator e diretor, detinha currículo igualmente robusto. Iniciou sua formação ainda na década de 80, quando fundou, junto com o colega Wellington Pará, a Cia. Diabo a 4 de Teatro. Os dois se conheceram na Faculdade de Pedagogia da UECE, durante uma oficina de teatro.

A paixão pelas artes, porém, vinha de muito antes, ainda no município de Monsenhor Tabosa, onde Sidney nasceu. Quando criança, participava de encenações natalinas e de celebrações ao Sete de Setembro.
Após o fim precoce da Cia. Diabo, Sidney recebeu convite para substituir um ator no espetáculo "De Amor Encarcerado ou a Paixão de Oscar Wilde", sob direção de Bruno Lima. Terminada a temporada, ingressou na Trupe Caba de Chegar, onde conheceu a fundo o teatro de rua. Apaixonado, abandonou outras atividades que mantinha para se dedicar exclusivamente ao teatro. Mas foi em 1998 que ele deu um salto fundamental, ao ingressar no Colégio de Direção Teatral, do extinto Instituto Dragão do Mar. Como trabalho de conclusão, participou do espetáculo "Os IKS", (1998/99), sob direção de Celso Nunes.
Nos anos seguintes esteve em "Os Desencantos do Diabo" (2001) - que cumpriu temporada no Nordeste e em Portugal - e "A Estrela Dalva" (2002), como ator e cantor, entre outras montagens. A qualidade de seu trabalho lhe rendeu ainda participações em produções da Rede Globo, como a minissérie Gabriela (2012), e, mais recentemente, na novela Boogie Oogie.
Como diretor, assinou os espetáculos "A saga de uma certa Bárbara" (2004/2005), "Um Sonho de uma Noite de Verão" (2007), "Apocalipse" (2008) e "Majestic Bar" (2008).
Fez mestrado em artes cênicas na Universidade de São Paulo (USP). De volta a Fortaleza, ingressou como professor do IFCE, onde ministrou disciplinas de interpretação, dirigiu espetáculos e ajudou a montar a estrutura do curso. Atuou ainda como arte-terapeuta, nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). Completaria 50 anos em julho.
Repercussão
Em nota, o secretário municipal de Cultura de Fortaleza, Magela Lima, lamentou a morte precoce do artista. "Sidney era dono de um talento extraordinário. Fez parte de uma geração de gigantes audaciosos do teatro de Fortaleza, tendo integrado a memorável Trupe Caba de Chegar e passado pelo Colégio de Direção Teatral em seu momento mais efervescente. Atualmente, tinha um diálogo muito produtivo com novos realizadores. Deixa um legado de dedicação e talento", destacou. O mesmo foi destacado pelo secretário de cultura do Estado, Guilherme Sampaio, em nota da Secult. Para ele, Sidney deixa "um amplo legado de contribuições às artes cênicas no Ceará e no Brasil".
Para a atriz Ana Marlene, que trabalhou com Sidney na Trupe Caba de Chegar, trata-se de uma perda muito grande para amigos e o teatro no Ceará. "Nesse momento um pedaço do nosso grupo se desfaz e todas as artes choram e sentem uma dor inexplicável. O Sidney era de uma coragem, força e talento únicos. Era um agitador cultural, um educador. Estimulava artistas iniciantes a fazerem o melhor teatro possível", reconhece.
No palco, ela o descreve como um profissional "criativo, dinâmico. Na trupe, nos deu muito impulso, porque era um ator de improviso rápido. Na rua, passamos por todo tipo de coisa e de públicos, e Sidney estava sempre preparado. É uma perda enorme".
O corpo de Sidney foi velado na tarde de ontem, no pátio interno do Theatro José de Alencar. Até o fechamento desta edição, não havia informações sobre se o ator seria sepultado em Fortaleza ou em Monsenhor Tabosa - seus pais estavam vindo do município para decidir a questão. Sidney tinha dois irmãos que moravam em Fortaleza.
Adriana Martins
Repórter

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