quarta-feira, 2 de abril de 2014

Belchior, em nova e colorida roupagem!

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Belchior: longe dos palcos e dos estúdios, cearense vê culto a sua obra crescer em todo o País
A música brasileira passou na década de 1970 por algumas pequenas revoluções, lançadas em formato Long Play. Prova disto, basta citar apenas as que partiram do Ceará, com Fagner lançando "Manera Fru Fru" (1973), Ednardo, Rodger e Teti, "Meu Corpo, Minha Embalagem Todo Gasto Na Viagem" (1973), e, pouco depois, Belchior. O trovador sobralense estreou em 1976, com o inesquecível "Alucinação", disco que concentrou uma boa leva de suas obras primas.
Quase 40 anos depois, a obra de Belchior mostra-se forte, atual e capaz de reverberar na cabeça das novas gerações. Um grupo de artistas reconstruiu o repertório do LP, com releituras cheias de ousadias, no disco "Ainda Somos os Mesmos" (2014), e resgatou ainda alguns sucessos posteriores do artistas, incluídos no EP "Entre o Sonho e o Som". A homenagem teve curadoria do jornalista Jorge Wagner, o mesmo responsável pelo projeto "Jeito Felindie", que converteu, em 2012, os licorosos e humorados pagodes do grupo Raça Negra para a estética indie. Do projeto atual, participaram 15 artistas ou grupos ligados à música independente. No álbum, estão Dario Julio & Os Franciscanos, Manoel Magalhães, Phillip Long, Nevilton, Lucas Vasconcellos, Bruno Souto, Nemoskine, Fábrica, Transmissor e Marcelo Perdido. The Baggios, Jomar Schrank, Ricardo Gameiro, João Erbetta e nana participam do EP.

"Chamei pessoas que tinham ligação com o trabalho do Belchior, ou por admirarem, como eu, ou com quem já tinha falado sobre o disco, que concordam comigo quando aponto uma injustiça em relação ao 'Alucinação' e ao próprio Belchior", argumenta o curador. O disco, reforça, soa, ainda hoje, "apaixonado e violento". A homenagem se coloca ainda como uma justa reação ao polemismo que vem ocupando os noticiários com acontecimentos e suposições bem menos relevantes, sobre a vida pessoal do cantor.
Para "Jeito Felindie", lembra o jornalista, partiu-se da tese de que a música do Raça Negra, tão depreciada e alvo de chacota por admiradores de outros gêneros, era equivalente a de outros grupos que os mesmos críticos enaltecem. "No fim das contas, tudo era pop. Não era mais brega que um Los Hermanos, por exemplo", defende.
Visibilidade
O disco ainda não ganhou versão para os palcos, mas esta é uma possibilidade já em estudo. Assim como no tributo anterior, é possível, ainda, que o show renda um pequeno documentário sobre Belchior e os artistas envolvidos. Não há, no entanto, um cronograma fechado para tal.
Por se tratar de um artista consagrado da música brasileira, embora não estando em evidência, a apropriação de sua obra por músicos independentes, para o curador é uma ação de mão dupla. Ao passo que coloca novamente Belchior em cena, explica, músicas como "A Palo Seco", "Fotografia 3x4", "Alucinação", abrem novos horizontes para os músicos participantes. "Na época da homenagem ao Raça Negra, a gente conversou muito sobre isso. A importância que esse tributo acaba tendo para todos os envolvidos", diz.
Projeto
O projeto está disponível para download gratuito. Segundo Jorge, por não ter, assim como "Jeito Felindie", anseios comerciais. O produtor diz que sequer procurou os detentores de direitos autorais das músicas para pedir autorização. "Não entramos nesses méritos legais. Em momento algum tivemos intenção de ter lucro. É algo até meio egoísta, de fazermos porque nós gostamos de ouvir - e, no caso dos músicos, de tocar. Não é oportunismo, é carinho", argumenta.
Belchior já havia ganho, em 2012, um tributo, "Belchior Blues", com participação de artistas do gênero, como Flávio Guimarães, Felipe Cazaux, Big Joe Manfra e Artur Menezes. O projeto, destaca Jorge, foi uma de suas referências. Musicalmente, no entanto, o novo tributo não fecha em um gênero específico, embora siga um recorte de proposta em meio a música independente. "Quis evitar o pessoal ligado ao rotulo da nova MPB, porque não queria sonoridade acústica, sambinha", diz.
O resultado é um Belchior absolutamente em nova roupagem, conservando referências da obra original, mas sob perspectivas diferentes e distantes do lugar comum.
Fábio Marques
Repórter

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