quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

O Ceará abraça Rachel



De Graciliano Ramos, ela leu que "este livro não é meu: é nosso", em dedicatória no livro "Angústia" (1947); de Drummond recebeu "não uma pedra no meio do caminho, mas um abraço amigo", na biografia deste poema informalmente citado (1967).

Essas memórias afetivas que fazem parte da biblioteca da cearense Rachel de Queiroz (1910-2003) e que há dez anos se encontravam alocadas no Instituto Moreira Salles (IMS), no Rio de Janeiro, estão de volta à terra natal da escritora, e agora passam a fazer parte do acervo da Universidade de Fortaleza (Unifor).

A ideia de transferência do material, composto de 3.063 itens, sendo 2.800 livros e 263 periódicos, começou a ser pensada em setembro de 2016, quando, em visita à instituição de ensino cearense, a coordenadora de Literatura do IMS, Elvia Bezerra, discutiu a possibilidade com a reitora da Unifor, Fátima Veras. "Falamos sobre o assunto e ela se mostrou muito receptiva. Apresentei a ideia ao Conselho de Acervos do Instituto Moreira Salles e ela foi aprovada. Logo, fizemos o termo de doação e tudo se concretizou em dezembro", descreve Elvia.

Devidamente catalogadas e despachadas do Rio de Janeiro por via terrestre, as obras chegaram em Fortaleza na última segunda-feira (9) e a expectativa é de que já estejam à disposição dos pesquisadores e do público em geral em fevereiro, em dois espaços da Universidade: a Biblioteca Central e a Biblioteca Acervos Especiais.

"É com misto de orgulho e satisfação que trazemos a biblioteca de Rachel de Queiroz para os cearenses. Na Unifor, ela se unirá a outros grandes e importantes acervos, mas certamente esta biblioteca receberá carinho especial de alunos, professores e colaborares da universidade e do público em geral, por toda a sua relação com a história de todos nós, cearenses", salienta a reitora Fátima Veras.

Transferência

Adquirido pelo IMS em 2006 e desde então abrigado na sede do instituto, na Gávea, o acervo de Rachel de Queiroz inclui obras raras, tais como "Mafuá do malungo: jogos onomásticos e outros versos de circunstância" (1948), de Manuel Bandeira, edição cuja tiragem foi de apenas 110 exemplares distribuídos entre os amigos do autor; e "O defunto" (1967), de Pedro Nava, com tiragem limitada de 50 exemplares assinados pelo autor e pelo ilustrador, José Júlio Calasans Neto.

Antes de homologar a doação, o IMS submeteu a decisão a Maria Luíza de Queiroz Salek, irmã mais nova da escritora, que faleceu em dezembro passado, aos 90 anos. Na ocasião, ela concordou plenamente com a transferência do acervo. "Achamos que a permanência da biblioteca em Fortaleza será muito proveitosa para os pesquisadores da obra de Rachel que residem aí. É claro que seria aqui também, mas tendo a autora sido tão ligada ao Ceará, acho que ela ficaria feliz, se fosse viva, com essa parceria. É um excelente destino, estou convencida disso", explicou a coordenadora de Literatura do IMS, reforçando que o arquivo da autora permanece no Instituto.

Sobre o estado das obras, Elvia garante que todos foram recuperados em laboratório de conservação, higienizados e catalogados antes da transferência. Ela não tem dúvida de que a Unifor tem todas as condições para manter os livros e os periódicos em excelente estado de uso e conservação. "O Instituto Moreira Salles se sente muito tranquilo quanto a isso. Conhecemos a Unifor e sabemos que a universidade é qualificada para manter o alto padrão de cuidados estabelecido pelo IMS. Trata-se de uma bela parceria", enfatiza.

Acervo completo

Com essa transferência efetivada, o Ceará passa a comportar todo o acervo da escritora. Após o falecimento de Rachel de Queiroz, em 2003, a família doou para o bibliófilo José Augusto Bezerra, atual presidente da Academia Cearense de Letras, parte do acervo pessoal de livros e obras autorais. Amigo da escritora, José Augusto ressalta que todas as obras de Rachel se complementam, dialogando entre si. "Eu já era colecionador há 40 anos quando recebi a doação da família de Rachel. O acervo dela foi dividido entre o museu Rachel de Queiroz, em Quixadá, a doação feita a mim e o que foi adquirido pelo Instituto Moreira Salles", acrescenta.

"Acredito que a volta deste acervo é imprescindível para o Ceará e toda a sua literatura. Ter esse acervo alocado na Universidade de Fortaleza é algo muito bom não apenas para a universidade, mas também para todos que quiserem consultar Rachel" salienta o bibliófilo.

Primeira mulher a entrar na Academia Brasileira de Letras, tornando-se também a primeira escritora a se destacar na literatura da década de 30 junto, a outros grandes, como Graciliano Ramos e José Lins do Rego, a autora do romance "O Quinze" volta a fincar, desta forma, as raízes na terra onde nasceu.

Obras do acervo

"Mafuá do malungo: jogos onomásticos e outros versos de circunstância", de Manuel Bandeira. Editora O Livro Inconsútil, 1948

"10 Romancistas falam de seus personagens". Editora Condé,1946

"O defunto", de Pedro Nava. Editora Macunaíma, 1967

"O Quinze". Confraria dos Bibliófilos do Brasil. 1995

"Xilogravuras", de Lasar Segall

"O Rio de Janeiro no século dezessete", de Vivaldo Coaracy, 1965

"Fala, amendoeira", de Carlos Drummond de Andrade. Editora do Autor, 1957

"Claro enigma", de Carlos Drummond de Andrade. José Olympio, 1951

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