A prática, que já era comum no Interior do Estado, tem ganhado mais força também no Legislativo da Capital
As eleições da Capital no próximo ano deverão contar com novos nomes, mas advindos de famílias já conhecidas no cenário político local. Prática historicamente comum do Interior do Ceará, a candidatura de parentes de políticos tem ganhado mais força também na Câmara Municipal de Fortaleza. Da legislatura 2005-2008 para a atual, o número de parentes de políticos na Casa subiu de pelo menos quatro para 11 vereadores. Para as eleições de 2012, são vários os descendentes de políticos que se filiaram a partidos visando disputar o cargo de vereador da Capital. Os filhos do deputado estadual Fernando Hugo, Renan Colares, e do deputado federal Raimundo Gomes de Matos, Pedro Matos, se filiaram ao mesmo partido dos pais, o PSDB. Já o filho do deputado Moésio Loiola (PSD), Igor Aquino, optou pelo PTC. Ao PSB, se filiou Everson Silva, cujo pai é o deputado federal Francisco Everardo Silva (PR), o Tiririca.
Todos eles são pré-candidatos em Fortaleza. Embora a maioria afirme que a motivação para lançar seus nomes passa longe do incentivo dos pais parlamentares, o cientista político Francisco Moreira analisa essas candidaturas como forma de garantir o capital eleitoral das famílias. A novidade, aponta, é que os parentes estão entrando cada vez mais cedo na disputa e pleiteando cargos inferiores aos de seus padrinhos políticos.
Disputa
"Partiu de mim ser candidato", afirma Pedro Matos. Aos 19 anos, ele diz pretender fazer uma política diferente, embora reconheça que o nome do pai possa lhe ajudar em uma eventual disputa. "Claro que tenho sempre um espelho que é meu pai, mas a gente quer fazer uma política que represente o jovem na Câmara Municipal", declara.
Ele afirma que envolvimento do pai na sua candidatura deverá ser o de orientação. "Eu acho que ser filho de político não determina que vai ser eleito. Mas ajuda, claro. Você tem um exemplo em casa. Ajuda pelo seu conhecimento do processo", argumenta Pedro, que diz já conhecer o trabalho de um vereador e avalia que não tem sido eficiente a fiscalização realizada pela Câmara de Fortaleza.
Além de Pedro Matos, o tucano Renan Colares, filho do deputado Fernando Hugo, está de olho em uma vaga na Câmara. A motivação, conta, surgiu ao acompanhar o pai em atendimentos à comunidade e reuniões políticas. "Agora eu quero ser o meu pai em Fortaleza. Quero fazer pela Capital o que ele faz pelo Ceará", declara.
Difícil
O caminho para isso, atenta Renan, é difícil. Segundo ele, a vitória não fica garantida com o apoio do pai, embora isso deva ajudar muito no sentido de conquistar a confiança do eleitorado. "Sei que preciso de muito trabalho e dedicação", justifica.
Outro que pretende se candidatar ao Legislativo da Capital é Everson Silva, o Tirulipa. Ele é filho do cearense Francisco Everardo, o Tiririca, que foi o deputado federal mais votado por São Paulo nas últimas eleições. Conforme Everson, a motivação para ingressar na política não partiu de seu pai, mas do deputado federal Domingos Neto (PSB), de quem é amigo.
"Ele, há muito tempo, já me convidava", conta. Mas foi a "campanha bacana" de Tiririca ao Congresso que deu novo ânimo à ideia. Everson disse que, após os convites do PR, do PRB e de Domingos Neto, ganhou o apoio do pai e se filiou ao PSB. "Se eu entrar, quero entrar pra valer", declara. Ele diz que nunca fez cursos de formação política, mas afirma que já desenvolve um trabalho social através do circo itinerante e, se realmente for candidato, vai procurar se aperfeiçoar politicamente.
Para Everson Silva, a fama e o capital político do pai não são suficientes para garantir seu futuro na política. "Se eu entrar, não é porque sou filho do Tiririca. Mas porque eu quero fazer algo, porque eu tenho o que oferecer. Sei que não vai ser fácil". Por outro lado, ele admite que o parentesco "ajuda pra caramba". "Eu vejo nele o que eu posso no futuro ter pra mim. A mudança na vida dele, que não é mais só o Tiririca palhaço, é um deputado. Existe um compromisso nisso", enfatiza.
Mas não são só os filhos de políticos que pretendem se candidatar à Câmara de Fortaleza. O vereador Marcílio Gomes (PSL) já admitiu a possibilidade de apoiar sua esposa, Cláudia Gomes (PTC). Isso porque ele só deverá se candidatar, se o PSL se coligar. O vereador Glauber Lacerda (PPS) também poderá apoiar sua esposa, Fátima Sindeaux (PMN), no próximo ano.
Cargos
O cientista político Francisco Moreira explica que a candidatura de parentes para substituir políticos no final da carreira faz parte da cultura cearense. A novidade, aponta, é que esses parentes começam agora a se projetar também de baixo, postulando cargos que não são, necessariamente, no nível daquele que o padrinho político ocupa.
Apesar disso, Moreira avalia que a situação provoca a continuidade dos mesmos grupos no poder: "Para a democracia, isso é muito ruim porque traz uma série de vícios. Isso tem um preço pra sociedade, que não consegue renovar (os representantes) e superar esses vícios".
Para ele, o objetivo geral da candidatura de parentes de políticos é manter o capital eleitoral: "Na verdade, a ideia é muito mais preservar os espaços para negociar seus interesses e as posições que vêm com o poder".
Mas ser parente de político não indica o sucesso na vida pública. Conforme Francisco Moreira, inicialmente é possível se eleger com o capital político do pai, mas, a partir da segunda eleição, o parente precisa demonstrar um bom trabalho para conseguir permanecer. "E às vezes ele não tem a mesma competência do pai", acrescenta.
Ele lembra que a candidatura de descendentes de políticos é tradicional do Interior e chega a envolver toda a família. "Isso é uma novidade do ponto de vista de Fortaleza, embora você encontre alguns redutos, alguns feudos políticos", considera, citando como exemplos a família do ex-vereador Gerôncio Bezerra, do Antônio Bezerra, e a família Alencar, de Messejana.
Saiba mais
Pedro Matos (PSDB), 19 anos, é filho do deputado federal Gomes de Matos e estudante de Direito. Integra o grupo Geração Inovar, que se reúne semanalmente e promove fóruns nas redes sociais para discutir problemas da Capital. Promete lutar pela juventude, educação e mobilidade urbana.
Everson Silva (PSB), 26 anos, é filho do deputado federal Francisco Everardo Silva, o Tiririca. Trabalha com apresentações de circo. Afirma que nunca fez cursos de formação política, mas destaca que já realiza trabalho social através do circo itinerante. Luta por melhorias principalmente na cultura e juventude.
Renan Colares (PSDB), 27 anos, é filho do deputado Fernando Hugo e formado em Sistemas de Informação. Afirma que tem atuação política no PSDB e no atendimento à população na Fundação de Assistência Comunitária Cearense, em Messejana, criada por seu pai. Levanta as bandeiras da saúde, segurança e transporte.
BEATRIZ JUCÁREPÓRTER
As eleições da Capital no próximo ano deverão contar com novos nomes, mas advindos de famílias já conhecidas no cenário político local. Prática historicamente comum do Interior do Ceará, a candidatura de parentes de políticos tem ganhado mais força também na Câmara Municipal de Fortaleza. Da legislatura 2005-2008 para a atual, o número de parentes de políticos na Casa subiu de pelo menos quatro para 11 vereadores. Para as eleições de 2012, são vários os descendentes de políticos que se filiaram a partidos visando disputar o cargo de vereador da Capital. Os filhos do deputado estadual Fernando Hugo, Renan Colares, e do deputado federal Raimundo Gomes de Matos, Pedro Matos, se filiaram ao mesmo partido dos pais, o PSDB. Já o filho do deputado Moésio Loiola (PSD), Igor Aquino, optou pelo PTC. Ao PSB, se filiou Everson Silva, cujo pai é o deputado federal Francisco Everardo Silva (PR), o Tiririca.
Todos eles são pré-candidatos em Fortaleza. Embora a maioria afirme que a motivação para lançar seus nomes passa longe do incentivo dos pais parlamentares, o cientista político Francisco Moreira analisa essas candidaturas como forma de garantir o capital eleitoral das famílias. A novidade, aponta, é que os parentes estão entrando cada vez mais cedo na disputa e pleiteando cargos inferiores aos de seus padrinhos políticos.
Disputa
"Partiu de mim ser candidato", afirma Pedro Matos. Aos 19 anos, ele diz pretender fazer uma política diferente, embora reconheça que o nome do pai possa lhe ajudar em uma eventual disputa. "Claro que tenho sempre um espelho que é meu pai, mas a gente quer fazer uma política que represente o jovem na Câmara Municipal", declara.
Ele afirma que envolvimento do pai na sua candidatura deverá ser o de orientação. "Eu acho que ser filho de político não determina que vai ser eleito. Mas ajuda, claro. Você tem um exemplo em casa. Ajuda pelo seu conhecimento do processo", argumenta Pedro, que diz já conhecer o trabalho de um vereador e avalia que não tem sido eficiente a fiscalização realizada pela Câmara de Fortaleza.
Além de Pedro Matos, o tucano Renan Colares, filho do deputado Fernando Hugo, está de olho em uma vaga na Câmara. A motivação, conta, surgiu ao acompanhar o pai em atendimentos à comunidade e reuniões políticas. "Agora eu quero ser o meu pai em Fortaleza. Quero fazer pela Capital o que ele faz pelo Ceará", declara.
Difícil
O caminho para isso, atenta Renan, é difícil. Segundo ele, a vitória não fica garantida com o apoio do pai, embora isso deva ajudar muito no sentido de conquistar a confiança do eleitorado. "Sei que preciso de muito trabalho e dedicação", justifica.
Outro que pretende se candidatar ao Legislativo da Capital é Everson Silva, o Tirulipa. Ele é filho do cearense Francisco Everardo, o Tiririca, que foi o deputado federal mais votado por São Paulo nas últimas eleições. Conforme Everson, a motivação para ingressar na política não partiu de seu pai, mas do deputado federal Domingos Neto (PSB), de quem é amigo.
"Ele, há muito tempo, já me convidava", conta. Mas foi a "campanha bacana" de Tiririca ao Congresso que deu novo ânimo à ideia. Everson disse que, após os convites do PR, do PRB e de Domingos Neto, ganhou o apoio do pai e se filiou ao PSB. "Se eu entrar, quero entrar pra valer", declara. Ele diz que nunca fez cursos de formação política, mas afirma que já desenvolve um trabalho social através do circo itinerante e, se realmente for candidato, vai procurar se aperfeiçoar politicamente.
Para Everson Silva, a fama e o capital político do pai não são suficientes para garantir seu futuro na política. "Se eu entrar, não é porque sou filho do Tiririca. Mas porque eu quero fazer algo, porque eu tenho o que oferecer. Sei que não vai ser fácil". Por outro lado, ele admite que o parentesco "ajuda pra caramba". "Eu vejo nele o que eu posso no futuro ter pra mim. A mudança na vida dele, que não é mais só o Tiririca palhaço, é um deputado. Existe um compromisso nisso", enfatiza.
Mas não são só os filhos de políticos que pretendem se candidatar à Câmara de Fortaleza. O vereador Marcílio Gomes (PSL) já admitiu a possibilidade de apoiar sua esposa, Cláudia Gomes (PTC). Isso porque ele só deverá se candidatar, se o PSL se coligar. O vereador Glauber Lacerda (PPS) também poderá apoiar sua esposa, Fátima Sindeaux (PMN), no próximo ano.
Cargos
O cientista político Francisco Moreira explica que a candidatura de parentes para substituir políticos no final da carreira faz parte da cultura cearense. A novidade, aponta, é que esses parentes começam agora a se projetar também de baixo, postulando cargos que não são, necessariamente, no nível daquele que o padrinho político ocupa.
Apesar disso, Moreira avalia que a situação provoca a continuidade dos mesmos grupos no poder: "Para a democracia, isso é muito ruim porque traz uma série de vícios. Isso tem um preço pra sociedade, que não consegue renovar (os representantes) e superar esses vícios".
Para ele, o objetivo geral da candidatura de parentes de políticos é manter o capital eleitoral: "Na verdade, a ideia é muito mais preservar os espaços para negociar seus interesses e as posições que vêm com o poder".
Mas ser parente de político não indica o sucesso na vida pública. Conforme Francisco Moreira, inicialmente é possível se eleger com o capital político do pai, mas, a partir da segunda eleição, o parente precisa demonstrar um bom trabalho para conseguir permanecer. "E às vezes ele não tem a mesma competência do pai", acrescenta.
Ele lembra que a candidatura de descendentes de políticos é tradicional do Interior e chega a envolver toda a família. "Isso é uma novidade do ponto de vista de Fortaleza, embora você encontre alguns redutos, alguns feudos políticos", considera, citando como exemplos a família do ex-vereador Gerôncio Bezerra, do Antônio Bezerra, e a família Alencar, de Messejana.
Saiba mais
Pedro Matos (PSDB), 19 anos, é filho do deputado federal Gomes de Matos e estudante de Direito. Integra o grupo Geração Inovar, que se reúne semanalmente e promove fóruns nas redes sociais para discutir problemas da Capital. Promete lutar pela juventude, educação e mobilidade urbana.
Everson Silva (PSB), 26 anos, é filho do deputado federal Francisco Everardo Silva, o Tiririca. Trabalha com apresentações de circo. Afirma que nunca fez cursos de formação política, mas destaca que já realiza trabalho social através do circo itinerante. Luta por melhorias principalmente na cultura e juventude.
Renan Colares (PSDB), 27 anos, é filho do deputado Fernando Hugo e formado em Sistemas de Informação. Afirma que tem atuação política no PSDB e no atendimento à população na Fundação de Assistência Comunitária Cearense, em Messejana, criada por seu pai. Levanta as bandeiras da saúde, segurança e transporte.
BEATRIZ JUCÁREPÓRTER
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