quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

O homem que virou lenda


Nem porta, nem janela, nem homem em casa, nem panela na beirinha da entrada para anunciar sua indesejada chegada, nem noite clara, nem vigília na rua. Não existia empecilho que pudesse detê-lo em seu intento: entrar nas residências, àquela época quase iguais, do Conjunto Prefeito José Walter, munido de navalha, bisturi ou estilete (não se sabe ao certo) e cortar os derrières de moçoilas, senhoras e crianças (idade não era critério, contanto que fosse mulher). O episódio se repetiu mais de 30 vezes e amedrontou entre 1985 e 1987 moradores do bairro, mas não só. A Cidade inteira, informada pelos veículos de comunicação, se tornou refém de quem se convencionou chamar de cortabundas (ou cortanádegas, diriam os mais conservadores). Tanto que a história, por mais reais que fossem os traseiros cortados, virou lenda.
Os mais novos não sabem, mas o tal do cortabundas “educou” muito meninote a voltar para casa cedo e entrou para o rol das lendas urbanas, junto com a perna cabeluda, a Hilux preta, o homem do saco e a loira do banheiro. Em Cortabunda – O maníaco do Zé Walter, que será lançado hoje, 20, na livraria Cultura, o escritor Jansen Viana resgata a lenda e a conta em forma de ficção.

Jansen, que não é morador do bairro, conta que acompanhou o desenrolar da história e a viu se perder com o tempo. “Existe uma geração que não conhece e é a nossa maior lenda urbana. A obra, patrocinada pelo Bando do Nordeste, é para trazer a memória e deixar para as próximas gerações. É também por isso que, além da ficção, resolvi colocar o apanhado de matérias que saíram nos jornais”, explica.

Apesar de ter conversado com médicos, policiais, moradores do bairro e familiares das vítimas, Jansen salienta que a obra, um misto de ficção policial e humor anedótico, tem a preocupação de não versar sobre histórias reais para não expor as vítimas. “Tive o cuidado de não ofender e nem expor ninguém e me preocupei em traçar um perfil do maníaco, dar minha versão sobre a pessoa por detrás do doente e que ninguém conheceu”, pontua.

Contado em terceira pessoa por um narrador onisciente, Cortabunda... costura histórias de personagens como a negra Yara, a mulata mais cobiçada do Zé Walter e portadora de ancas para lá de visadas; seu namorado, o invejado carteiro Wolf, que magricela recebeu o apelido de Wolf Duas Viagens, porque por ser interpelado quanto à quantidade de areia que a morena representava para seu caminhãozinho, respondia “dou duas viagens”; Bosco, o artista plástico recluso e problemático, cuja a mãe tem as costas quentes na polícia; Aniceto, o enfermeiro obcecado por suturas, bisturis e tudo relacionado com cirurgias; e o inteligente detetive Vinícius. É esse último que durante todo o livro investiga e elenca como principais suspeitos Wolf, Bosco e Aniceto.

Na história real, eram também pelo menos três os suspeitos. O caso, porém, terminou mal resolvido, com a prisão de Francisco Evandro que confessou a maioria dos crimes e acabou assassinado no presídio 21 dias depois de sua prisão, sem esclarecer vários questionamentos, nem dissolver controvérsias. “No livro, essa questão não fica fechada. O leitor não vai saber quem é realmente o maníaco. A lenda é um patrimônio do povo, por isso não pensei em dar uma espécie de solução”, esclarece.

Muitas histórias
O assunto, que estampou as páginas do O POVO nos anos em que os crimes aconteceram, não teve sua discussão restrita apenas à década de 1980. Natália Paiva, 27, jornalista e mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, assinou em 2006 uma série de reportagens sobre lendas urbanas no O POVO e levou o assunto para sua dissertação de mestrado. A jornalista explica porque, para ela, apesar de real, o cortabundas se tornou lenda. “O que ocorre é que a natureza do crime (cortes na bunda, parte do corpo cheia de elementos simbólicos na cultura brasileira) e o prolongamento do mistério (levou-se muito tempo para se prender alguém) alimentam um acervo ancestral de histórias ligadas ao esfacelamento e à marcação do corpo”, destaca. O cortabundas será ainda tema de mais um livro, dessa vez um livro-reportagem em quadrinhos. O formando em Jornalismo e ilustrador, Talles Rodrigues é morador do bairro e teve a infância povoada por histórias do maníaco. O livro em quadrinhos traz uma abordagem jornalística do caso. “Por mais que vá usar a linguagem da ilustração para representar coisas mais abstratas a respeito do caso, o conteúdo será 100% baseado na apuração dos dados, e dos relatos de pessoas envolvidas no caso, como policiais, jornalistas e, claro, as vítimas”, adianta.

SERVIÇO

Cortabunda – O Maníaco do Zé Walter
173 páginas
Quanto: R$ 25
Quando: hoje, 20, às 19 horas
Onde: Livraria Cultura (Av. Dom Luís, 1010)
Outras info.: (85) 4008 0800

Domitila Andrade
domitilaandrade@opovo.com.br

Um comentário:

  1. pastor jansen ou simplesmente jansen foi opurtuno o senhor relembrar essa lenda urbana o corta bundas ,que faz parte de nosso imaginario , é bom a gente viver um pouco de suspense , se não a vida seria muito monotona . eu sou evangelico da ex-betesda maranguape e achei o laçamento desse livro um barato . jansen não ligue para as criticas dessas denominações que são muito presas a dogmas e tem pouca misericordia . um abraço do seu dileto amigo de maranguape otavio albino neto meu email é otavio.albino.neto@gmail.com

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