segunda-feira, 13 de junho de 2011

60% dos pacientes internos na unidade são adolescentes


Clique para Ampliar
A adolescente Ingrid Pamela Dias, está internada há 5 meses,
 no Hospital do Câncer decorrência de um osteossarcoma no joelho.
 A jovem aguarda por uma cirurgia FOTO: FRANCISCO VIANA

Eles são bonitos, cheios de vida, adoram andar em grupos, soltam gargalhadas e se divertem o dia inteiro. Muitos assumem responsabilidades desde cedo, outros nem gostam de falar no assunto. Apesar de estarem no estágio inicial da vida, dados da Secretaria da Saúde do Estado (Sesa) mostram que os adolescentes também adoecem e morrem. Para se ter uma ideia, entre os 61 pacientes internados no Hospital do Câncer, em Fortaleza, 37, têm entre dez e 19 anos, ou seja, 60% são adolescentes.

Neoplasias
Além disso, outros números revelam que as causas externas (homicídios e acidentes de trânsito), continuam sendo a primeira causa de óbito entre adolescentes e jovens. Mas, para surpresa de todos, as neoplasias (tumores), ocupam o segundo lugar entre a população de dez a 19 anos e as doenças do aparelho circulatório (coração), são a segunda causa de óbitos entre os jovens de 20 e 39 anos.
Em 2009, conforme dados da Sesa,1.130 adolescentes entre dez e 19 anos morreram no Ceará. Destes, 72, em decorrência de tumores. Em 2010, dos 1223 óbitos nessa faixa etária, 89, foi em decorrência de câncer. Já entre os jovens de 20 a 39 anos, o vilão é o coração. Em 2009, dos 4.865 óbitos nessa faixa etária, 416 ocorreram devido a problemas no órgão. Em 2010, a Sesa registrou 369 mortes pela mesma causa. Laptop, aparelho de MP4, bonecas de gesso, cadernos e desenhos por todo lado. Esses objetos compõem um típico quarto de uma adolescente de 16 anos. São utensílios pessoais que a estudante Ingrid Pamela Dias, fez questão de levar para o Hospital do Câncer, em Fortaleza, onde está internada desde fevereiro último.
A adolescente de 15 anos, natural de Sobral, descobriu que é portadora de uma câncer chamado osteossarcoma, um tumor maligno nos ossos que se propaga rapidamente. "No inicio, sentia muitas dores nos joelhos. Eles inchavam bastante e eu passava noites sem dormir. Minha avó me levou para vários médicos, mas foi difícil achar um quem suspeitasse de câncer". Conforme Ingrid, nem ela, nem os médicos da cidade, muito menos a sua família, poderiam imaginar que a ela estaria com uma doença tão grave em plena adolescência.
Só depois do diagnóstico realizado no Hospital do Câncer, foi que a adolescente descobriu não ser a única com a doença, pois mais 37 adolescentes ocupam outros leitos da mesma unidade hospitalar.
A garota tem fé na cura e que retomará sua vida de antes, realizando atividades após a cirurgia. "Sinto falta da minha escola, de jogar voleibol, de sair com os amigos e principalmente, comer pizza com refrigerante gelado", desabafa Ingrid.
Para a adolescente, apesar dos 15 quilos a menos e da queda do cabelo, o tratamento é a parte mais difícil de enfrentar na cura contra o câncer. "Ficar sem cabelo é fácil, depois cresce, o ruim são os efeitos colaterais que sinto, vivo enjoada e cansada", ressalta.
A mãe de Ingrid, a promotora de vendas Verônica Braga, diz que muitas doenças poderiam ser evitadas se as famílias tivessem mais informações e os médicos fossem mais atentos. Segundo ela, o atraso no diagnóstico, atrapalhou bastante o tratamento da filha que já poderia estar recuperada. "Ela ficou muito tempo pensando que era portadora de artrite nos joelhos. Foram realizados vários diagnósticos errados até que descobríssemos que a Ingrid estava com câncer", destaca Verônica. Para ela, outro agravante é que os adolescentes não costumam frequentar consultórios médicos e os pais, geralmente, não incentivam a prática, pois acreditam que os filhos não adoecem.

Causas
Segundo a chefe do setor de pediatria oncológica do Hospital do Câncer, Georgina Lins, no ano passado, 19 novos pacientes entre dez a 19 anos ingressaram na unidade com neoplasias. Esse ano, o número já chega a oito novos casos.
Conforme a especialista, apesar dos dados demonstrarem um acréscimo no número de casos, o que aumentou foram os diagnósticos precisos, ou seja, segundo ela, sempre existiram adolescentes com câncer o que não havia era tecnologia capaz de identificar tantos casos.
Ainda de acordo com Georgina Lins, outra explicação para a grande quantidade de adolescentes com câncer no Estado, é a diminuição de outras doenças como as infecto-contagiosas, devido os avanços em medicamentos, saneamento básico e melhora nas condições de higiene da população. "Diante dessa situação, a consequência é um predomínio maior de adolescentes oncológicos. Apesar de ser considerada a segunda causa de óbito entre eles, há uma grande chance de sobrevida dos pacientes. Cerca de 70% deles, geralmente, ficam curados", afirma a médica.
Ainda de acordo com ela, a demora no diagnóstico existe, pois é muito difícil para o médico desconfiar no primeiro atendimento que o adolescente está com câncer. Para a profissional, a solução para o diagnóstico precoce, que favorece as chance de sobrevivência, são as consultas de rotina.
Ela diz que, diante da ausência de médicos especialistas em adolescentes, essa população deve continuar visitando o pediatra que o acompanha desde o nascimento. "Esse profissional tem mais subsídio. É essencial que os adolescentes continuem frequentando o médico pelo menos uma vez por ano.

CORAÇÃOPrevenção pode evitar óbitos
"Há dois meses não vejo minha filha. Não tenho nem previsão de sair daqui. Cheguei no Hospital do Coração em um estágio bem avançado da doença e só aceitei me internar porque já estava me sentindo muito mal", conta a recepcionista Maria Miqueline Nascimento, 23 anos.
A jovem é uma entre os 27 pacientes internados no Hospital Dr. Carlos Alberto Studart Gomes (Hospital do Coração). Ela também compõe uma estatística entre jovens que não costumam frequentar consultórios médicos no Ceará.
Miqueline é portadora de doença congênita chamada Comunicação Interatrial (CIA), caracterizada por uma abertura entre os átrios, que permite a passagem do sangue do átrio esquerdo para o átrio direito, popularmente conhecida como sopro no coração. Doença, que segundo o cardiologista do Hospital do Coração, Wellington Silva, poderia ter sido tratada na infância e evitado todo o sofrimento atual da jovem.

Negligência
No entanto, segundo Maria Miqueline, a cardiopatia só foi descoberta aos 16 anos, em uma consulta pré-natal. Mesmo assim, ela conta que não se interessou pelo problema, pois como não sentia nenhum sintoma não procurou ajuda médica. Hoje, com 15 quilos a menos e uma expressão triste, a jovem se arrepende e confessa que parte da culpa de estar nessa situação atual é dela, pois jamais poderia imaginar que a doença era tão grave.
Miqueline diz sentir falta da época que era "saudável" e podia trabalhar. Sente falta da família e, principalmente, da filha que não pode visitá-la no hospital. Para passar o tempo e a angústia da espera, ela costuma ler a bíblia e jogar dominó com os colegas de quarto. "Recomendo aos jovens que não hajam como eu e procurem sempre ir ao médico, pois apesar de sermos, aparentemente, saudáveis, é necessário realizar a consulta de prevenção anual", ressalta a recepcionista.

Causas
Conforme Welington Silva, a maioria das doenças no aparelho circulatórios pode ser tratada se o diagnóstico for precoce. Ainda segundo ele, 50% das doenças do coração são adquiridas na infância por uma bactéria chamada estreptococos, causadora da febre reumática. "A febre surge de uma simples infecção bacteriana na garganta, a partir daí os próprios anticorpos que protegem o corpo acabam levando a um comprometimento valvular, lesando o coração", explica o cardiologista.
Esse é o caso do auxiliar de escritório Alex das Virgens, 23 anos. Aos nove, o jovem começou a sentir os primeiros sintomas da doença, no entanto, depois de 14 anos seu problema ainda não foi solucionado.
Alex, que é natural de uma cidade no interior da Bahia, chamada Valente, diz que chegou a ir para a Capital, Salvador, a fim de receber tratamento. Mas, infelizmente, lá os médicos só recomendaram medicamentos que não amenizaram o seu sofrimento. "Eu me sentia cansado, enjoado, o coração era bastante acelerado, nada passava a minha dor. Mas, na Bahia eles me falaram que a minha cirurgia custava R$ 40 mil, e eu não tinha condições de pagar", diz.

Solução
Felizmente, Alex conheceu uma pessoa que mora em Fortaleza que o trouxe para fazer a cirurgia no Hospital do Coração. O jovem, que já está internado na unidade há um mês, afirma estar confiante de sua cura. "Agora sim, acredito que vou voltar a ter uma vida normal. Meu sonho é poder voltar a trabalhar e deixar de depender dos outros para sobreviver. Tenho certeza de que se eu tivesse sido operado ainda quando criança não precisaria ter passado por todo esse sofrimento", conclui. O cardiologista Welington Silva, explica que as principais doenças no aparelho circulatório são as cardiopatias congênitas, doenças cardíacas adquiridas por febre reumática, patologias da aorta, causadas pela má formação, e infarto no miocárdio, em decorrência de maus hábitos alimentares, uso de cigarro, bebidas alcoólicas e cocaína. Além disso, ainda segundo o cardiologista, um dos piores "inimigos", do coração do jovem a hipertensão arterial, por carga genética.
Conforme o cardiologista, muitos jovens entre 20 e 39 anos são hipertensos e não sabem, pois a doença é silenciosa e os sintomas só aparecem em consequência de uma lesão no coração, nos rins ou no cérebro. Até então, o coração desse jovem vinha sofrendo bastante em decorrência da pressão alta.
"Tudo isso poderia ser evitado em uma visita periódica a uma clínico geral, mas na nossa cultura ainda existe o preconceito e o pensamento incorreto de que jovem não adoece".

KARLA CAMILA SOUSA
ESPECIAL PARA CIDADE


Nenhum comentário:

Postar um comentário